Dica: Um lugar ao sol (2009)

Um lugar ao sol (2009) é mais que um documentário para nos fazer pensar questões urbanas. De imediato, surpreende por não tratar direta ou indiretamente sobre populares, nem sobre temas como violência urbana, exploração ou corrupção policial. O caminho é outro, convergindo nossas expectativas para situações e percepções pouco apresentadas.

O documentário, assinado por Gabriel Mascaro, é um registro de entrevistas com moradores de coberturas em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. O cineasta lança suas lentes para as elites e para a vida em coberturas de alto luxo. Coberturas deixam de ser apenas residências no alto de prédios a partir do momento em que o filme nos mostra todo o valor simbólico que os próprios moradores afirmam.

Pouco importando as discussões sobre o posicionamento político do cineasta, sobre o quanto foi ou não tendencioso na seleção do material, o que se vê é uma outra dimensão construída pelas pessoas ao explicar sua relação com a cobertura. Para alguns é privacidade e segurança em relação ao bárbaro mundo comum, estar em uma ilha urbana flutuante para aqueles que sentem que não precisam descer. Para outros é estar perto de deus.

Não penso ser um exagero aproximar o filme de algo como um pequeno “diagnóstico social” a partir das falas dos moradores que compõe uma parcela poderosa da população descolada, ainda mais, das diversas realidades que compõe a sociedade. Também não penso ser um exagero considerar a alienação como termo adequado para perda do nexo entre realidade e imaginário, percebido na maioria das entrevistas como auto-exclusão ou uma rebeldia contra a realidade. Nos dois casos, a sociedade é algo externo, o outro, separado, diferente e com poder total ou nenhum poder sobre a vida e as coisas.

Pensando na cidade e na vida urbana, a vida em prédios e condomínios também pode ser um complexo objeto de estudos. Nós constantemente atribuímos sentido e significado aos lugares que temos ou não acesso. Aliás, acesso, na cidade do século XX, está em constante ressignificação e reapropriação, principalmente pelo domínio capitalista da produção do espaço. Falar em coberturas, mansões, condomínios, shoppings e lugares exclusivos em grandes centros também implica em reavaliarmos todos as relações possíveis com o espaço.

Um lugar ao sol pode ser uma centelha para buscarmos outros temas e problemas na compreensão do que é a cidade que vivemos e que construímos. Não é uma super produção cheia de conclusões. E um filme que termina quase como começa, deixando a reverberação das falas sobre como se percebe e como se vive em uma cobertura de alto luxo.

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