Implosão do prédio da antiga “Manufatura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia” no Rio de Janeiro

Acabei de ler um artigo bem interessante no portal da RHBN sobre a implosão do prédio da antiga “Manufatura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia”, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro e conhecida como “Fabrica da Brahma”.

O prédio construído no século XIX era um elemento importante do patrimônio industrial do Rio de Janeiro e na história industrial do país. O vídeo citado no corpo do artigo mostra a implosão do prédio, e é entristecedor, pois naturaliza uma maneira muito cruel de eliminar um bem tão importante. Sua demolição revigora os debates sobre a preservação desta modalidade de patrimônio e mostra que devemos ficar atentos aos empreendimentos feitos para atender grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas.

Fabricas, estações ferroviárias, maquinários e ferramentas fazem parte da constituição da memória e identidade das populações urbanas e sua preservação ou não devem ser debatidas com a sociedade de maneira honesta. Infelizmente, quando a questão refere-se ao trato do patrimônio ou as transformações do espaço urbano, o que assistimos são iniciativas arbitrárias e autoritárias, ou justificativas baseadas em interesses privados maquiadas de um discurso em prol de melhorias sociais.

O artigo foi escrito por Ricardo Pimenta, doutor em Memória Social. Pesquisador da Revista de História e professor da Ucam e Uniabeu. Veja a seguir:

Fábrica centenária sambou       

Implosão de cervejaria do século XIX desativada no Rio motiva artigo de pesquisador da RHBN sobre a preservação de construções dentro de uma cidade em expansão

Ricardo Pimenta*

6/6/2011

O Rio de Janeiro tem em sua paisagem dezenas de chaminés. Antigas fábricas que compuseram o cenário urbano de fins do século XIX e início dos XX. Dessa vez, mesmo a chaminé não foi poupada. Não há intenção em se guardar qualquer vestígio, qualquer resto. Testemunhamos a todo o momento no cenário urbano a constatação de uma “história escolhida”. Ou seja, da deliberação do que merece continuar a fazer parte da história e o que se torna dispensável. E nesse caso abaixo a máxima de que o show não pode parar se mostra mais que adequada.

A fábrica da Brahma, anteriormente chamada de “Manufatura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia”, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro, foi ao chão neste domingo, dia 05 de junho de 2011. A referida indústria cervejeira (uma das primeiras no Brasil) foi erguida em 1888, sendo registrada na junta comercial da capital do Império por seu fundador, um imigrante suíço, Joseph Villiger (1856-1903).

De lá para cá, muita coisa mudou. O parque industrial se modernizou logo no início do século XX com a anexação de outras companhias cervejeiras próximas, mas o fato é que o local constitui parte da história urbana e sócio-econômica da cidade do Rio de Janeiro. Parte de um patrimônio que havia sido reconhecido pela lei nº 4.001 de 2002, a fábrica acabou por ter seu tombamento revogado pela lei nº 157 de 2011, na qual se discorre que tal medida seria necessária para “adequar a cidade ao Projeto Olímpico de 2016 e possibilitar melhorias para o carnaval fluminense” (Alerj, 2011).

Paisagem dramática, sem dizer preocupante, quando nos deparamos com a constatação de que um patrimônio, um sítio arqueológico industrial, possa ser visto como empecilho à modernização de uma cidade como o Rio de Janeiro. Não que a preservação desvairada de tudo seja a ordem do dia. De fato, as cidades crescem e com elas muitos registros anteriores se apagam. No entanto, existem medidas para se aplacar o total apagamento do espaço; impedindo que esses vestígios, ainda são tão caros à memória coletiva e à história, desapareçam completamente.

Estudos sobre as condições do patrimônio industrial vem se desenvolvendo, ainda de forma modesta, no panorama brasileiro. Sabemos, inclusive, que o processo de “desindustrialização” dos grandes centros urbanos desde meados dos anos 60 e 70 — como é o caso da cidade do Rio de Janeiro —, atingiu um número expressivo de antigas fábricas, empurrando-as para fora do cenário urbano da capital.

Nesse sentido, o primeiro e segundo encontros nacionais sobre patrimônio industrial, realizado pelo Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial, têm apontado para este fenômeno. A carta assinada na cidade russa de Nizhny Tagil sobre o patrimônio industrial, escrita em julho de 2003 no âmbito da Comissão Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial (TICCIH, na sigla em inglês), apresenta-nos um pouco desta categoria patrimonial ainda pouco conhecida e valorizada no Brasil:

O patrimônio industrial reveste um valor social como parte do registro de vida dos homens e mulheres comuns e, como tal, confere-lhes um importante sentimento identitário. Na história da indústria, da engenharia, da construção, o patrimônio industrial apresenta um valor científico e tecnológico, para além de poder também apresentar um valor estético, pela qualidade da sua arquitetura, do seu design ou da sua concepção.

Embora a carta aconselhe a criação de programas de proteção ao patrimônio industrial integrados às políticas econômicas (e por que não à renovada indústria do turismo?), o fato é que, em se tratando dos sítios industriais, muito pouco foi feito e continua a ser realizado no Brasil. Fica nas mãos da iniciativa privada que pode deliberar de forma arbitrária sobre o assunto.

No caso da antiga fábrica de cerveja, a disputa pelo espaço foi igualmente uma disputa de valores e de capitais simbólicos. Entre o patrimônio arquitetônico do projeto do Sambódromo de Niemeyer, a especulação imobiliária, o apelo comercial de expansão do sambódromo, e a arquitetura de origem alemã da antiga cervejaria, houve claramente um perdedor.

Na cidade do Rio uma chaminé a menos, um lugar a mais para se sentar e assistir ao desfile no próximo carnaval e uma lacuna a mais para nós historiadores buscarmos aplacar.

Link para o original: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/fabrica-centenaria-sambou

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Um pensamento sobre “Implosão do prédio da antiga “Manufatura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia” no Rio de Janeiro

  1. Sidney Soares disse:

    Essa construção da Brahma tem história! foi um desafio sua implosão.

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