Transporte público e gestão do trânsito

Escrito por Daniel Florêncio (cineasta, jornalista e diretor do Ah! Cidade), o texto abaixo é uma ótima reflexão crítica sobre o transporte público em Belo Horizonte. Não resisti a tentação de compartilhar com os leitores do meu blog. Recomendo a leitura para todos, independente de onde resida.

O PREFEITO EM UM ÔNIBUS – link http://ahcidade.com/2011/04/o-prefeito-em-um-onibus/

Montagem: Daniel Florêncio sobre fotos de divulgação.

É possível crer em soluções para o transporte público quando seus próprios administradores preferem o particular?

O anúncio na semana passada do número de viagens de ônibus na capital mineira nos leva a a pensar o quão sério é levado o transporte coletivo por aqui e por quanto mais tempo a administração do município insistirá em medidas paliativas.

O anúncio da BHTrans foi feito após matéria do MG-TV da mesma semana, mostrando a saturação, a superlotação e o caos enfrentado por passageiros de ônibus na capital.

A notícia divulgada foi que 60% das linhas da capital teriam acréscimo do número de viagens. Esse acréscimo no entanto, é de apenas 4,7%. O número cresceu de 25.166 para 26.347 – um aumento de 1.181 viagens. Existem na cidade 310 linhas de ônibus. Dessas, 186 foram afetadas.

Observando esses números, uma conta matemática simples nos mostra que, se  considerarmos um período de 12 horas, cada uma dessas linhas de ônibus teve um acréscimo de “meia” viagem por hora. Se consideramos as 24 horas do dia, cada linha teve um acréscimo de um quarto de viagem por hora. Ou seja, em um período de 12 horas, o passageiro “ganhou” na realidade uma nova viagem a cada 2 horas. Num período de 24 horas, o passageiro “ganhou” uma nova viagem a cada 4 horas.

O esforço da BHTrans em responder a matéria do MG-TV divulgando esses números é risível frente ao real avanço dessa medida na qualidade do transporte coletivo para o usuário final. Meia viagem por hora é insignificante frente aos problemas enfrentados pelo transporte na capital.

*

No entanto, quando a gerente de coordenação de projetos da BH-Trans, Raquel Gontijo, foi questionada pelo jornal Hoje em Dia sobre a possibilidade de aumento no número de veículos, a resposta foi a seguinte:

“Não faz sentido aumentarmos a frota, pois mais carros nas ruas significam maior disputa por espaço e, consequentemente, mais congestionamento. Nossa intenção é melhorar o transporte como um todo, diminuindo o tempo de espera dos usuários no ponto de ônibus. Com isso, conseguiremos nosso objetivo”.

 

Na lógica da BHTrans, ônibus só disputa lugar com ônibus. Carros de passeio não entram nessa conta. E é esse exatamente o “X” da questão: a falta de vontade política da administração municipal em enfrentar o problema criado pelos carros de passeio.

A experiência em São Paulo com os corredores de ônibus foi extremamente bem sucedida, com redução significativa do tempo de viagem dos ônibus afetados pelos corredores exclusivos. Do outro lado da faixa, no entanto, para os carros de passeio, a história é outra: mais congestionamento e mais tempo no trânsito.  Apesar de bem sucedida para os milhões de usuários de ônibus, a medida virou um tormento político para ex-prefeita Marta Suplicy. Tormento alimentado principalmente pelos donos de veículos de passeio, colocados em cheque com a priorização do ônibus.

A melhoria do transporte coletivo rodoviário de superfície só se dá em detrimento do transporte particular. No entanto, é compreensível que não se veja no horizonte nenhuma vontade política em enfrentar os motoristas de veículos particulares, já que os próprios administradores municipais não são usuários do transporte coletivo.

Como acreditar em vontade política do prefeito de Belo Horizonte em melhorar o transporte coletivo na cidade quando ele mesmo não o utiliza?

Simulação de Marcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte, andando de ônibus (montagem de Daniel Florêncio sobre fotos de divulgação)

Nesse sentido, é interessante comparar atitudes em relação ao transporte coletivo dos prefeitos de Belo Horizonte e de outras capitais fora do Brasil, como Londres e Nova Iorque. Cidades com número de habitantes muito maior que a capital mineira.

Michael Bloomberg é um multibilionário criador de uma empresa de serviços financeiros e encontra-se em seu terceiro mandato como prefeito de Nova Iorque. Bloomberg, mesmo sendo multibilionário, vai para o trabalho de metrô todos os dias. Fotos de Bloomberg no metrô são encontradas à exaustão pela Internet, tiradas por passageiros surpresos em encontrar o prefeito no mesmo vagão que eles. A NY Magazine no entanto descobriu que o prefeito vai de carro de sua casa até a estação do metrô mais próxima.

Michael Bloomberg. Imagem: Spencer Platt/Getty Images

Em Londres não é diferente. O ex-prefeito da cidade, Ken Livingstone, era frequentemente visto pela manhã dentro da linha de metrô Jubilee, a caminho da prefeitura. Passageiros frequentemente tiravam fotos de Ken lendo o jornal ou trabalhando dentro do vagão.

Ken Livingstone. Imagem: Peter Marshal, Mylondondiary.co.uk

Já o atual prefeito de Londres, Boris Johnson, é comumente encontrado pedalando sua bicicleta para o trabalho, e vem sendo o responsável pela implantação na cidade de novas ciclovias e do recente sistema de aluguel de bicicletas, de sua iniciativa.

Em uma nota particular, é interessante a experência que tive com os prefeitos de Belo Horizonte e de Londres. Quando Fernando Pimentel ainda ocupava a prefeitura, testemunhei a chegada dele em uma produtora no bairro São Pedro para a gravação de um comercial. Pimentel saiu de dentro de um carro oficial preto, guiado por um motorista, seguido por um outro carro com sua segurança particular. Já em Londres, certa vez esperando pelo ônibus à noite, avistei o prefeito Boris Jonhson caminhando sozinho ao meu lado na calçada em direção a uma loja de frango frito fast-food na esquina.

Boris Johnson. Imagem: UPPA/Photoshot

Por que tamanha diferença de atitude? O cidadão belorizontino deveria se perguntar o que faz do prefeito de Belo Horizonte tão “especial” e os prefeitos de duas das principais capitais mundiais tão “comuns”? Como Marcio Lacerda vai para o trabalho todas as manhãs? Por que os nossos prefeitos não utilizam o transporte coletivo?

Existe uma palavra para definir qualquer promessa de melhoria da rede de trens e de ônibus, enquanto o próprio chefe do executivo municipal não for ele próprio usuário do transporte coletivo que administra: bravata.

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2 pensamentos sobre “Transporte público e gestão do trânsito

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