Quando as árvores em Belo Horizonte não matavam pessoas

Retirado da “Mensagem apresentada ao Donselho Deliberativo pelo Prefeito Christiano Machado Monteiro em outubro de 1928”

No dia 12/02/2011 comentei neste blog um e-mail contestando o corte de 36% das árvores do Parque Municipal no Centro de Belo Horizonte. Citei indiretamente também os relatórios e mensagens de prefeitos das primeiras décadas da capital, que tratavam a arborização da cidade como medida essencial para manter a cidade moderna e elegante.

Belo Horizonte, entre os anos de 1897 e 1910, recebeu milhares de mudas vindas de outras cidades do Estado. Só o Parque Municipal Reneé Gianetti, inicialmente projetado com 555 mil metros quadrados, recebeu entre os anos de 1908 e 1909, mais de 5.000 mudas.

Naquele tempo, em uma cidade construída também para ser vitrine dos esforços republicanos para modernizar o Estado, a arborização e manutenção dos espaços verdes eram parte de um discurso urbanístico progressista vinculados a preceitos sanitários essenciais a saúde pública. Não se imaginava que as árvores um dia poderiam ser cortadas por questões supostamente de segurança pública. A nova capital dos mineiros não poderia ser feia, suja, muito menos sem áreas verdes para favorecer o frescor do ar.

Em 1910, o prefeito Olyntho Meirelles relatou a importância das áreas verdes da capital enquanto dizia estar preocupado com os desmatamentos nos arredores da cidade:

“A exuberância e beleza da nossa arborização, na área da cidade, constituem uma das notas mais originaes e características de Bello Horizonte, e que provocam verdadeira admiração dos nossos hospedes.

E esta sensação e tão viva e intensa quanto ao lançarem as vistas pelos arredores e mesmo por todo município da Capital só vêm uma vegetação pobre e rachitica. Sinto-me na obrigação de passar em revista as causas deste facto e pedir ao conselho medidas que corrijam a devastação e favoreçam o incremento de florestas no município.” (Mensagem apresentada pelo Prefeito Olyntho Meirelles ao conselho deliberativo da Capital em 1910, p.28)

O poder público prestava contas à população sobre a manutenção das áreas verdes a sua maneira e também questionava aqueles que não as tratavam com o devido cuidado.

O que chama atenção nos dois contextos – hoje, a diminuição dos espaços verdes e as árvores como ameaças à segurança pública e noutros tempos como essenciais para manter a cidade como referência ao moderno e ordenado espaço urbano da capital – é o quanto as medidas dos gestores estão distantes dos interesses daqueles que realmente ocupavam e ocupam os espaços públicos.

Sempre pressionados a mostrar serviço, os prefeitos da cidade, de Adalberto Dias (1897-1898) ao atual, Márcio Lacerda, fazem valer suas medidas de maneiras pouco convenientes. Quando embelezar a cidade e torná-la mais verde era parte da lógica progressista de fazer a cidade mais moderna e moralizada, os pobres e indigentes tinham acesso restrito aos locais públicos por medidas de fiscalização. Hoje, realizar cortes generalizados de árvores no parque municipal (que, ao contrário de outros tempos, hoje pouco se beneficia dos investimentos em obras públicas da cidade) é a solução encontrada por Márcio Lacerda para manter a segurança no local, pois qualquer outra medida que exigisse mais investimento sairia cara aos cofres da prefeitura. Não acho que preciso mostrar números para dizer o quanto o atual prefeito tem investido na “melhoria” do trânsito para automóveis mais que em espaços públicos de lazer pela cidade. Uma coisa não deveria anular a outra, mas como parece que se anulam continuamente não há investimentos para medidas com intuito de manter os espaços públicos acessíveis e seguros. Basta olhar as grandes obras viárias por aí e a condição dos espaços para pedestres por toda a cidade. Sem querer ficar pegando no pé do atual prefeito, enquanto atropelamentos forem tratados como fatalidade e quedas de árvores como assassinatos, algo estará muito errado.

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3 pensamentos sobre “Quando as árvores em Belo Horizonte não matavam pessoas

  1. Luana Campos disse:

    Obrigada pela visita! Temos amigas em comum: Nat e Cris! Óia só procê vê que mundo pequeno!”Mundo, mundo, vasto mundo”!

    Abração!

  2. […] que fiz aqui no início do ano passado sobre o corte de árvores no Parque Municipal e pela repercussão da notícia. Fico feliz ao ver a imprensa levantando a questão novamente. A arborização e a manutenção das […]

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