Guia Politicamente Incorreto Da história do Brasil com “h” minúsculo mesmo…

Saiu ontem, dia 15/02/2011, uma crítica ao “Guia Politicamente Incorreto Da história do Brasil” do jornalista Leandro Narloch, feito por Sylvia Colombo em sua coluna no Folha.com. O texto me chamou a atenção porque, embora reconheça a importância dos trabalhos conhecidos como de “divulgação científica”, a colunista que é editora do Folhateen e também repórter e formada em História reclama a falta de critérios na abordagem de determinados temas. Eu não li o livro inteiro, muito menos o trabalho do Laurentino Gomes (“1808” e “1822”) citado como um “ótimo exemplo de trabalhos de divulgação científica”. O que li foram trechos e partes disponíveis na internet que não me convenceram em nada.

Como sei que posso ser sincero com qualquer um que venha aqui ler o que escrevo, vou dizer: o Leandro Narloch perde ponto só por ser empregado na Veja editor da revista Superineteressante. Quanto ao Laurentino Gomes, por mais bem intencionados que seja, ele ainda precisa de mais rigor no conteúdo do que encaderna (e claro, exigir capas mais bonitas!). Não dá para florear a história e beirar um outro velho conhecido dos nossos domingos, o tal de Eduardo Bueno. Ou será que estou equivocado?

Leia a crítica da Sylvia Colombo

(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylviacolombo/875554-historia-com-h-minusculo.shtml )

História com “h” minúsculo

Há tempos me intriga a presença, no meio das listas de livros mais vendidos, do “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, do jornalista Leandro Narloch (editora Leya). Num país desinteressado, de um modo geral, pela história, é no mínimo curioso que uma obra com esse tema atinja a marca de 100 mil exemplares vendidos. Agora, o “guia” ganha uma versão ampliada com novos capítulos temáticos.

Vejo algo de muito positivo na iniciativa de Narloch. Afinal, os velhos manuais de história com os quais estudamos na escola estão cheios de erros, versões unilaterais de determinados episódios e ideias datadas. Não são atualizados nem sequer pelos novos autores de livros do gênero.

E Narloch realmente consegue trazer coisas muito interessantes à tona, com base em pesquisas recentes e novos trabalhos acadêmicos. Há que se destacar, por exemplo, o capítulo sobre a Guerra do Paraguai, que desmonta a versão ideologizada que muitos ainda têm do período. Como base, ele usa o excelente estudo de Francisco Doratioto (“Maldita Guerra”).

O mesmo acontece com o capítulo dedicado a Aleijadinho. Nele, usou o estudo da filósofa mineira Guiomar de Grammont (“Aleijadinho e o Aeroplano”), para mostrar como o mito foi sendo construído, como muitas coisas atribuídas ao artista mineiro não lhe pertencem e como outras gerações se apoderaram do ícone. Diz Narloch: “O grande ponto fraco do dispositivo retórico dos modernistas foi o anacronismo. Eles escreveram sobre um escultor barroco como se ele fosse um artista romântico ou integrante das vanguardas modernas do século 20.”

Também é de se elogiar o modo irônico como trata os historiadores marxistas mais radicais que viram em Zumbi um símbolo da resistência anti-imperialista. “É difícil acreditar que, no meio das matas de Alagoas, Zumbi tenha se adiantado ao espírito humanista europeu ou previsto os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa.”

Infelizmente, devo encerrar meus elogios por aqui. Narloch, em linhas gerais, propõe um “guia” para “reler” a história do Brasil sem, aparentemente, nem sequer tê-la lido bem. Me causou espanto, por exemplo, não detectar na bibliografia consultada nem nas notas de rodapé do jornalista os nomes de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior ou Fernando Novais, entre os historiadores mais famosos e importantes do país.

Com relação a negros e índios, Narloch usa uma visão bastante distorcida de uma certa escola carioca de interpretação da história. Nela, os brancos não teriam sido assim tão maus e a colonização resultara boa para todos. Diz Narloch dos indígenas, por exemplo: “queriam mesmo era ficar com os brancos, misturar-se a eles e desfrutar das novidades que traziam”. Ou: “Perceberam que muitos nativos se mudaram para vilas por iniciativa própria, provavelmente porque se sentiam ameaçados por conflitos com os brancos ou cansados da vida do Paleolítico das aldeias”.

Narloch faz generalizações rasas sobre o que identifica como alma dos países. Algo um tanto quanto infantil e banalizante, para concluir que o Brasil é um país “bipolar” em crise com sua identidade. Anota ele: “Haveria aquele país que mal notaria a existência dos outros, como a França, talvez os Estados Unidos. A Alemanha se seguraria calada, sofrendo de culpa, desconfortável consigo e com os colegas ao redor. Uma quarentona insone, em crise por não ser tão rica e atraente quanto no passado, representaria muito bem a Argentina. Claro que haveria também países menos problemáticos, como o Chile ou a Suíça, contentes com a sua pouca relevância. Não seria o caso do Brasil, paciente que sofreria de diversos males psicológicos. Bipolar, oscilaria entre considerações muito negativas e muito positivas sobre si próprio.” E conclui: “a identidade nacional foi sempre um problema psicanalítico no Brasil”.

Mais à frente, surge outra pérola: “Existem muitos lugares irrelevantes pelo mundo –como Porto Rico, a Bélgica, o Paraná– o que não chega a ser um problema.”

Em outro momento infeliz, compara o nacionalismo de Mário de Andrade aos de Hitler e Stálin. Só porque o modernista publicou obras “sobre modinhas do tempo do império, folclore, música popular, música de feitiçarias e danças dramáticas”.

O momento mais delicado, obviamente, é aquele em que trata da ditadura. É cada vez mais comum que novos estudos promovam uma releitura menos ideologizada do período e que cada vez menos se fale em “mocinhos” e “bandidos”, como sugere Narloch. Mas o rapaz toma tão claramente um só partido da dicotomia que diz tentar combater que fica até feio. Chega a dizer coisas duvidosas, que qualquer estudioso sério da ditadura ao menos relativizaria, do tipo: “Qualquer notícia de movimentação comunista era um motivo justo de preocupação. A experiência mostrava que poucos guerrilheiros, com a ajuda de partidários infiltrados nas estruturas do Estado, poderiam sim derrubar o governo.”

Não sou da opinião de que a história só pode ser escrita por historiadores das universidades. No Brasil mesmo há ótimos exemplos de trabalhos de divulgação científica (gênero ainda muito recente por aqui) feitos por autores que não são historiadores de formação. O melhor deles é Laurentino Gomes, com seus bons livros “1808” e “1822”, ambos sucessos de vendas. Infelizmente, o que Narloch faz não se enquadra nisso. Apesar de partir de uma boa ideia, caiu em armadilhas e chegou a um resultado lastimável.

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12 pensamentos sobre “Guia Politicamente Incorreto Da história do Brasil com “h” minúsculo mesmo…

  1. Mark disse:

    Olá amigo
    Esse “guia” está completamente errado!
    É um lixo!
    Muita gente compra pensando que vai tirar onda.
    mas está sendo enganada
    Quem compra, não tem discernimento pra ver que são mentiras, coitados!
    Esse cara merece ir pra cadeia!
    Uma visão “direita da história”.

    Um livro de “verdade incomodas” vai ser divulgado pela globo?

    Acorda!!

    Melhor castigo pra ele é o fracasso de seu próximo livro!

    • André disse:

      Vejo muita gente criticando, mas ninguém refutando os estudos e argumentos costurados pelo autor. Uma pena que o debate fica ao nível ideológico.

  2. Mark disse:

    Bem intencionado?
    É política, meu fiho, é política…
    Querem uma versão de “direita da história”, só isso, recheado de mentiras…
    Custe o que custar, lute contra isso.

    • Mark, eu comentei e compartilhei uma crítica feita pela jornalista Sylvia Colombo. Eu concordo em quase todos os pontos da crítica dela.
      Penso também que você está sendo superficial ao considerar que o trabalho do Narloch é somente “uma versão de direita da história”, ou que o problema reside só nessa questão. Também acho o tal guia uma aberração, mas não é isso que a autora da crítica usou como critério para expor sua opinião sobre o livro. Ela tratou dos equívocos e simplismo sensacionalista (que também podem aparecer em trabalhos “de esquerda”). Temos que pensar para além da “história de direita” e da “história de esquerda”, se é que existem assim como você colocou. A História é um campo de interesses, e isso está claro pra mim.
      Obrigado pela visita.

  3. gracam5 disse:

    Pois é. Revisionismos são bastante comuns, não?
    Acho que o maior mérito do livro é fazer tremer nossas convicções. Se ele faz pensar e deixar “ismos” radicais de lado, a leitura já valeu.

    • Graça, eu não gosto do livro. Mas acho que é isso mesmo, ele força uma reflexão crítica, principalmente por parte de historiadores que deveriam se preocupar mais com esse tipo de trabalho, chamado de divulgação científica, e que ainda não é tão forte no Brasil quanto é no resto do mundo. Obrigado pela visita. Um abraço.

  4. Gustavo disse:

    Muito bom como contraponto, tratar a população como ignorante ao extremo sem capacidade para distinguir verdades e mentiras é muito radical para meu gosto. O livro precisava ser mais trabalhado, mais ele não deixa de trazer bons questionamentos para nossa história.

  5. Jagannatha disse:

    É normal quando alguém vai contra ao Brasil novela todos reclamar…livro muito bacana que leva você a questionar e pensar a ter novas ideias… pois sabemos que a muita mentira nos foi e nos são contadas…

    • Olá, eu particularmente não aprovo a abordagem espetacularizada e, ao mesmo tempo, ridicularizadora e simplista do tal guia da história do Brasil. Narloch me parece ser o menos preocupado com qualidade. Eu não recomendaria o livro dele para ninguém.

  6. Nicoli Araújo disse:

    Acabei o ensino médio este ano, e sei grande parte da história brasileira e geral na ponta da lingua. Porém, ao ler o livro de Leandro Narloch, descobri que fui enganada. Não por professores, e sim pelos meus livros de história, tão confiáveis que enlouquecidamente li até lembrar de datas(apesar de isto não ser necessário). Creio que o escritor não dedicou sua obra a estudiosos e entendedores, e sim a pessoas como eu, que foram enganadas. Além disso, o livro inicia um questionamento com base bibliográfica. Quem for realmente curioso (como eu, e pelo jeito o próprio Narloch) correrá em busca dos livros nos quais a obra foi baseada. Como de tudo pode se tirar proveito, Narloch não pôde se conter e deixou no livro sua visão política. Cabe a nós compormos a nossa própria opinião.

    • Nicoli, não é uma questão de ser “enganda”. Não existe uma verdade. São questões de leituras e interpretações possíveis. Concordo totalmente com as críticas ao livro do Narloch, especialmente com o que disse Sylvia Colombo: o autor “propõe um “guia” para “reler” a história do Brasil sem, aparentemente, nem sequer tê-la lido bem”.
      Um abraço

      • André disse:

        Não sabemos as verdades nem do presente, por mais completo que seja o trabalho midiático, imaginemos do passado…

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